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terça-feira, 19 de agosto de 2014

PSICOPATA TRESLOUCADO ESPANCA CICLISTAS

« É um desporto desgastante.... Por isso, mesmo quando não terminam nos primeiros lugares, gosto de ir ter com eles e dar-lhes uma palmada reconfortante nas costas. Afinal de contas, é bom chegar em primeiro lugar mas, nem sempre ganhar é tudo o que importa »

Este testemunho fictício, que deu origem ao título bombástico deste post, pretende ilustrar aquele que vem sendo o hábito na maioria das notícias que envolvem ciclistas, carros, seguros, operações STOP e código da estrada: tira-se o que interessa, realça-se o que gera polémica e criam-se títulos aos quais só faltam umas letras em néon a piscar. 








Pois é caros ciclistas, no final de Julho, quase de certeza que a maioria de nós se deparou com uma destas pérolas:


« Associações de ciclistas querem seguradoras de carros a pagar acidentes »
(O DRAMA!)

« Seguro automóvel deve pagar por acidentes causados por bicicletas »
( O HORROR !!)


« Seguro automóvel deverá vir a pagar por acidentes causados por bicicletas »
( A TRAGÉDIA!!!)



« Vais pagar!!!! Vais pagar!!!! »



Confesso que na altura em que estas notícias começaram a sair, achei a situação um bocado absurda. Uma onda de histeria colectiva parecia ter tomado conta das discussões, e a época de caça às bruxas estava oficialmente aberta (com direito a archotes e forquilhas, como nos bons velhos tempos). 



O cenário pitoresco que muitos artigos transmitiam era essencialmente este: 



Era uma vez, um ciclista fofinho de quem toda a gente gostava. Era uma espécie de Branca de Neve que pedalava pela cidade a assobiar ao som do canto dos pássaros. Tinha uma pequena horta ali em Telheiras, onde produzia produtos 100 % biológicos que depois distribuía pelos mais carenciados. Aquilo que não conseguia produzir, comprava no pequeno comércio local. 
Basicamente, era muito fixe.
Porque tinha uma bicicleta. 
Ah, e preocupações ambientais e não-sei-quê.



« Gosto de atropelar ciclistas e atirar lixo pela janela ! »


Depois, era uma vez um automobilista. Uma criatura vil e mesquinha. Como tem carro, de certeza que não tem preocupações ambientais. Como tem carro, é quase certo que anda em excesso de velocidade. 
Que estaciona em cima dos passeios.
Que tem uma "arma mortal" nas mãos. 
E que todo e qualquer acidente será, dê por onde der, culpa dele. 
E isto tudo porque o carro polui e ele tem mais é que andar de bicicleta. Mais nada! 





Bom... não sei qual a vossa opinião relativamente a este assunto mas, eu não podia estar menos de acordo com a perspectiva de um condutor automóvel, pelo simples facto de conduzir um carro, ser responsabilizado por um acidente causado por alguma manobra kamikaze de um ciclista tresloucado (pois, porque lá por andar de bicicleta, isso não faz de todos os ciclistas um exemplo a seguir. Há ciclistas e ciclistas. Tal como há automobilistas e automobilistas). 


« Mas nos outros países é assim! »  
Tudo bem. Que seja. Há muitas coisas que se fazem "nos outros países" com as quais eu não concordo. 


« Mas o condutor, como tem carta, tem a obrigação de ter mais atenção ! »
Ah sim ? Então e não há ciclistas com carta de condução ? Esse é um dos argumentos que vem sempre à baila quando se fala do direito a circular na estrada ...


« Ainda assim, o condutor tem de ter mais atenção e estar preparado. Porque tem carro e o carro tem potencial destrutivo » 
Eu também tenho potencial destrutivo quando estou de mau-humor. E nem preciso de carro! 
Agora fora de brincadeiras, a verdade é que há situações tão imprevisíveis que, por mais atenção que tenhamos, não conseguimos evitar. Sabem a quantidade de acidentes que há com cães nas auto-estradas? Ou com javalis em estradas rurais ? Podemos antecipar algumas situações de perigo e até adoptar uma condução mais defensiva mas, há situações tão improváveis que nem sequer as ponderamos. Quantas pessoas, quando circulam numa auto estrada pensa: «é melhor ir a 80 km/hora porque... nunca se sabe... pode aparecer um cão abandonado e eu não ter tempo de parar » ou « deixa-me cá reduzir a velocidade porque pode aparecer um cavalo vindo de nenhures »


Adiante.


Estava eu a dizer que se gerou uma onda de loucura e indignação porque ninguém se entendia. As associações de ciclistas diziam, supostamente, uma coisa. O ACP respondia, supostamente, com outra.

E "supostamente" porquê ?

Convido-vos a espreitar os links da MUBI e da FPCUB a respeito deste assunto.



Vão lá. Eu espero.





Já está ? 

E então ? Parece que afinal a história não é bem como aparece nas letras gordas.


Afinal ...
« Assim, ao contrário do que tem vindo a ser divulgado na comunicação social com meias verdades suportadas em citações parciais e descontextualizadas, a MUBi não defende qualquer agravamento dos seguros automóveis nem que estes tenham que compensar sempre e de forma definitiva as vítimas. Pelo contrário, caso estas venham a ser responsabilizadas pelo sinistro, cabe à seguradora o direito de vir a ser ressarcida de parte da compensação prestada ao utente vulnerável, em tribunal. » MUBI



Afinal...
« A bicicleta é também de entre os veículos que circulam na estrada, um dos que menos acidentes (e com menor gravidade) pode provocar. Também é daqueles meios de transporte que em razão da velocidade que atinge, menos danos corporais provoca (para além de muitas outras vantagens para a sociedade em geral - económicas, ambientais e de saúde pública). Mesmo sem seguro obrigatório, o condutor de velocípede (ou peão) não deixa de ser responsável e os seus bens não deixam de responder por isso. Tal como qualquer cidadão que provoque danos em bens pertencentes a terceiros. » FPCUB


Afinal andou tanta gente histérica por causa de um monte de tretas descontextualizadas.



Ah.... o milagre da manipulação das massas. E enquanto se apedrejam uns aos outros nas redes sociais com calhaus virtuais e comentários desvirtuosos, a atenção vai sendo desviada daquilo que realmente importa: a necessidade de melhorar e criar infraestruturas adequadas.



« hehehehe»









sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bicicleta é coisa de Pobre!

Certamente que muitos de vós já ouviu falar, e provavelmente até acompanha, a MariaBicicleta, um trabalho documental da autoria de Laura Alves (jornalista, co-autora da Gloriosa Bicicleta e, mais recentemente do Acreditar) e Vitorino Coragem (jornalista, fotógrafo e documentarista).

Ora, estava eu a ler a entrevista que a Ana Isabel Almeida (que é professora de informática) deu para a Maria Bicicleta quando...


« Os meus alunos perguntavam: 
“Mas a professora não vem de carro porquê ?” 
E eu dizia que não tinha carro. 
“Então e uma mota ?” 
Ou seja, achavam que andar de bicicleta era ser pobre »

Pois é... andar de bicicleta é sinónimo de pobreza e, todos nós sabemos que ninguém quer ser encaixado nessa categoria marginal e marginalizada a que se chama de “pobre”.

Porque ser pobre é mau. Mas pior, porque ser pobre, parece mal ... E então rodeamo-nos de coisas inúteis, para nos sentirmos menos pobres, ainda que sejam essas coisas inúteis que nos arrastam para um estilo de vida cada vez mais instável, em que os gastos são consideravelmente superiores aos ganhos e só um louco acha que sai a ganhar. No entanto, no que diz respeito à ostentação, sem dúvida que andar montado num BMW parece “menos pobre” do que andar de bicicleta e, todos sabemos que ter um bom carro é a afirmação de que se está a viver "the portuguese dream".


« Deve ser um gajo importante ! » - dirão uns.
« G’anda máquina! Aquilo custa mais que a minha casa!» - dirão outros.


E, onde quer que passe, despoletam admiração...





quarta-feira, 11 de junho de 2014

EMEL e a política de (des)mobilidade urbana


A EMEL, Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa, foi criada por deliberação da Assembleia Municipal de Lisboa em 1994, enquadrada na chamada « política integrada de estacionamento » que tem como principal objectivo « potenciar a utilização de transportes públicos (...) reduzindo o congestionamento e melhorando a qualidade do ambiente urbano » (in, Definição do Plano Estratégico e do Novo Modelo Tarifário para a EMEL) 

Até aqui, tudo bem... Mas, vamos então espreitar a página da EMEL e ver quais são as suas principais prioridades: 

A médio prazo, em relação à gestão do estacionamento, a EMEL definiu como principais prioridades até 2013:
  • Construção de 4 parques de estacionamento em estrutura (1 parque por ano) - 2.000 novos lugares: Investimento 16.ooo.ooo €
  • Construção de 11 parques de estacionamento em superficie - 4.000 novos lugares: Investimento 2.578.000 €
  • Renovação e Modernização de 1.050 parquímetros - Investimento 5.250.000 €
  • Extensão da área de estacionamento gerida pela EMEL - 10.000 novos lugares
  • Modernização e diversificação das formas de pagamento do estacionamento


Resumindo, parece que a redução do congestionamento se consegue criando milhares de lugares de estacionamento. Mas... isso não vai levar a que as pessoas tragam na mesma o carro da periferia para o centro da cidade ? E se assim for, em que medida em que a construção de « 4 parques de estacionamento em estrutura » e « 11 parques de estacionamento em superfície » contribui para reduzir o tal congestionamento ?

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Constrói-as e eles virão

« If you build them, they will come » 
(se os construíres, eles virão)

Embora esta frase, atribuída a Theodore Roosevelt se refira à construção do Canal do Panamá, parece-me que se encaixa perfeitamente se o objectivo for debater ideias sobre a forma como podemos aumentar o número de ciclistas a circular na cidade e, consequentemente, diminuir o tráfego automóvel.

O que vem primeiro, afinal ? As ciclovias ou os ciclistas ? 

O que será necessário para que quem usa o automóvel como meio de transporte, percepcione a bicicleta como uma alternativa vantajosa, viável e, acima de tudo, segura ?

Poderíamos aqui falar das alterações ao Código da Estrada, da forma como o ciclista passou a usufruiu de determinados direitos e de como isso veio aumentar a sua segurança.
A questão que agora se coloca é: será mesmo assim ? 

Quem é que nunca tinha circulado nas estradas, a par com os automóveis, antes de saírem estas alterações ? Quem faz da bicicleta o seu meio de transporte sabe que isso seria insustentável. Assim sendo, parece que a maioria de nós terá andado, durante bastante tempo, a pedalar à margem da Lei.

Ora, a questão aqui torna-se simples: há muitos ciclistas nas estradas. O que fazer ?

Bom...se proibimos que circulem na estrada, isso será visto como um incentivo à utilização do automóvel, o que vai completamente contra a sustentabilidade que tem sido promovida e incentivada noutros países europeus. Mas, por outro lado, não existem alternativas viáveis visto que, para já, temos uma ciclovia aqui e outra ali, e não uma verdadeira rede que permita circular por toda a cidade, ou até mesmo entre cidades. 

Não havia muito que se pudesse fazer... sobretudo se tivermos em conta as repercussões que qualquer decisão iria ter não só em termos políticos, como ao nível da imagem do país. Imaginemos por exemplo que se proibia a circulação das bicicletas na estrada, e que os ciclistas que o fizessem eram efectivamente multados... Se Portugal já não goza de particular fama, imaginem o gigantesco passo atrás que tais medidas implicariam. 

A solução? Permitir que as bicicletas andem nas estradas, exigindo apenas, em contrapartida, que os ciclistas respeitem a legislação em vigor. 

Não vamos negar que, em termos de mobilidade, é vantajoso. Principalmente porque nos deu legitimidade para circular na estrada. Mas... será mesmo mais seguro ? O que é que foi feito para promover essa segurança ? A operação "Pedalar em Segurança" da PSP ? Na essência, a ideia era interessante: « sensibilizar os ciclistas para os comportamentos de risco » (sim, porque também há ciclistas que precisam de ser sensibilizados para estas questões) mas, como sabemos, o fruto desta operação foram uns quantos títulos de jornal sensacionalistas, criados para induzir em erro quem só lê as letras gordas, e uns quantos artigos facciosos. Aquilo que era uma operação se sensibilização, transformou-se num circo itinerante, sem bilhete pré-comprado e com direito a participar.

Portanto... segurança ? A mesma que sentia antes destas alterações. 

Os bons condutores automóveis, já o eram e continuarão a sê-lo. 
Os donos da estrada, já o eram e continuarão a sê-lo. A não ser que se faça algo para mudar. Mas, como a fiscalização é inexistente, o mais provável é continuarem a comportar-se exactamente da mesma forma.

Qual será então, em teoria, a solução para promover o uso da bicicleta ? 

Na Holanda de 1979 (altura em que foram criadas as primeiras infraestruturas cicláveis) a resposta foi simples: constrói-as e eles virão. E a verdade é que em Den Haag, a criação dessas infraestruturas representou um aumento entre 30 a 60 % do número de ciclistas e, em Tilburg, esse aumento rondou os 75 %. 

Também na cidade de Ghent, Bélgica, que em 2012 ganhou a Eurostar Ashden Award for Sustainable Travel, as medidas adoptadas permitiram que o número de ciclistas aumentasse, entre 2008 e 2011, cerca de 15 %. E que medidas foram estas ?




  • Campanhas de marketing e promoção contínuas, com o objectivo de demonstrar que qualquer pessoa pode adoptar a bicicleta como meio de transporte, promovendo e incentivando assim a sua utilização
  • Criação de um site com informações úteis e práticas sobre a utilização da bicicleta na cidade
  • Apoio e interesse, por parte da classe política, em questões relacionadas com a promoção do uso da bicicleta e vantagens que daí advêm (resultante também do facto da cultura da bicicleta se ter tornado intrínseca)
  • Criação de locais livres de carros (como o centro da cidade) e reposicionamento do parqueamento automóvel, tornando assim, em termos comparativos, muito mais rápida a deslocação de bicicleta
  • Reformulação de ciclovias, colocando a infraestrutura fora da estrada e recolocando o parqueamento automóvel de forma a que este forme uma barreira entre o tráfego automóvel e a ciclovia
  • Criação de "Cycle Streets". Ou seja, estradas em que a bicicleta é prioritária em relação a todos os outros veículos, o que resultou num aumento significativo do número de ciclistas a circular (de 244 em Março de 2010 para 505 em Março de 2012) e uma diminuição do tráfego automóvel (259 em Março de 2010 para 192 em Março de 2012), assim como uma diminuição de 80 % de veículos a circular a mais de 50 Km/hora

Se algumas destas medidas poderiam ser adoptadas por cá ? Acredito que sim. E, o facto de existirem petições, como a da Ribeira das Naus sem Carros, demonstra que as pessoas têm vontade de se apropriarem novamente do que é seu, e de usufruir do espaço público que é de todos. Outro caso em que seria interessante: a Avenida da Liberdade. Sim, já tem faixas partilhadas nas extremidades mas, que tal vedaram essas faixas ao trânsito 2 ou 3 vezes por semana para ver como corre ? Se a construção da rotunda permitiu reduzir em 32 % os níveis de partículas inaláveis (que durante muito tempo transformaram a Avenida da Liberdade, na mais poluída do país) imaginem o que uma medida destas poderia fazer, não só em termos de poluição atmosférica mas também sonora...

Mas, não basta implementar medidas e construir ciclovias e fechar os olhos às irregularidades que espreitam a cada esquina. Lisboa não tem a tradição da bicicleta. Há um punhado de ciclistas resilientes que não abdica da bicicleta pelos mais diversos motivos mas, a grande maioria das deslocações, continua a ser feita a quatro rodas (apesar dos custos financeiros e ambientais que implica). Por isso, se queremos realmente que o número de bicicletas aumente, que as pessoas se sintam seguras a pedalar e que essa forma de transporte constitua uma vantagem em relação ao automóvel, é preciso AGIR!

De que vale ter uma ciclovia se depois temos de ir pela estrada porque está transformada em parque de estacionamento ? 





De que vale ter zonas 30 km/hora se os limites não são respeitados e as operações STOP, quando realizadas, são precedidas de um aviso com data e hora a que será respeitada ? 

De que vale construir ciclovias se não são práticas e cicláveis (desce passeio, sobe passeio) e não é feito qualquer tipo de manutenção, transformando-a numa verdadeira pista de obstáculos ?






As ciclovias deverão ser pensadas como uma alternativa viável e concretizável, construídas do ponto de vista utilitário e não de lazer, permitindo a TODOS (homens, mulheres, jovens, crianças, idosos, pais a transportar crianças) que as utilizem sem ter de recorrer à estrada como alternativa pois, se há quem tenha a destreza para circular entre os automóveis, há quem não se sinta seguro e, enquanto o ideal « bicicleta = segurança » não for alcançado, os números manter-se-ão, assim como a tendência de ir de carro para todo o lado.






Fontes:
Eltis-The Urban Mobility Portal
Diário de Notícias
Ashden Case Study
How the Dutch got their cycle paths
Ghent Campaing


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Primavera. Alergias e Suor.

Quem anda habitualmente de bicicleta, já terá reparado que, com a chegada da Primavera, chegam também os ciclistas. À semelhança das flores, alguns permanecem num estado de dormência durante os meses mais frios e chuvosos, para depois desabrocharem com os primeiros raios de sol.

Mas desengane-se quem acha que estes ciclistas são "uns meninos" só porque deixam a bicicleta em casa quando está mau frio ... e chuva ... e vento. Pelo contrário! Com a Primavera vêm uma série de novos desafios que, até para quem pedalou o Inverno inteiro, podem ser uma aventura.

- Isso são tretas!  - dirão alguns - Já nem sequer chove! Qual é o desafio de pedalar quando está sol ?

Ah... o sol... O sol que nos aquece a cara enquanto pedalamos tranquilamente pelos prados asfaltados da cidade, concentrados apenas no som dos motores dos automóveis e na fumaçada que sai dos tubos de escape... Os mosquitos verdes que nos entram pela boca adentro durante o caminho e que nos levam a pensar se não deveríamos trazer uma garrafinha de lambrusco e uma salada para acompanhar o pitéu... O pó que cai das árvores e que entra para as calças e nos força a aproveitar as paragens nos semáforos para tentar coçar o traseiro sob o olhar atento dos automobilistas e transeuntes... O calor...

Calor é bom. Quando vamos à praia. Quando estamos de folga. Quando estamos numa patuscada a enfardar caracóis. Mas quando vamos trabalhar, o calor pode ser "a pain in the ass".
Em primeiro lugar, porque é deprimente. Sim, leram bem: deprimente. Ali vamos nós a pedalar em direcção ao emprego e a pensar nas mil e uma coisas que poderíamos fazer e por momentos temos aquele pensamento louco de pedalar na direcção oposta porque está-nos mesmo a apetecer ir ali espreitar aquela ciclovia, ou simplesmente ficar refastelados num relvado a fazer a siesta e a comer gelados.

Em segundo lugar porque calor = suor e, se não forem propriamente amigos do calor, chegam ao emprego como eu ...


Claro que, com o ar condicionado o interior poderia estar bastante refrescado mas, regra geral, somos atingidos por uma onda de calor e ficamos sem perceber se as pessoas estão com frio, se somos nós que estamos com demasiado calor porque optámos por ir de bicicleta (a opinião geral), ou se estão a tentar fazer um "Cozido das Furnas" dentro dos aparelhos de ar condicionado.

Seja como for, uma coisa é certa: nada saberia tão bem como ficar de cuecas em frente a uma ventoinha. Mas, como isso não é habitualmente permitido nos locais de trabalho, lá vamos para a nossa labuta diária.

Naturalmente que há como contornar a questão do desconforto gerado pelo calor...


I
Não façam absolutamente nada. Provavelmente ninguém vos vai dizer que fedem e ficam a ganhar em termos de espaço pessoal visto que as pessoas irão manter uma distância de segurança em relação a vocês.

Existe porém o risco de apanharem alguém a comentar que «fulano tal vem para aqui todo suado» «pffff isto com a moda que aí anda de virem de bicicleta... onde é que já se viu?! Vir de bicicleta para o emprego...  córrore!»






II
Não compliquem e comprem um duche portátil! Querem mais simples do que isto ? Enchem aquilo com água. Quando chegarem perto do trabalho penduram o aparelho numa árvore e está feito! 

Os mais envergonhados podem até pendurar num daqueles ganchos que há nas portas da casa de banho e refrescarem-se confortavelmente fora dos olhares indiscretos.








III

Levem o kit anti-fedor-ciclistico: uma t-shirt suplente + 1 desodorizante + 1 toalha ou toalhitas. No caso das mulheres, há as mais recatadas, que vão para um compartimento refrescar-se com as toalhitas e, aquelas a quem só falta entrarem para dentro do lavatório (apesar dos olhares escandalizados de quem entra na casa de banho e se depara com alguém esbaforido, de soutien, a dizer "ah que bom!" enquanto se molha e ensaboa...).



Depois, é só tentarem manter uma aragem a correr ... e devo dizer-vos que há umas relíquias bem jeitosas para o efeito, como este mini-tufão :)












segunda-feira, 14 de abril de 2014

Buracos, Buraquinhos e Túneis até ao Centro da Terra

De acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, « O Município de Lisboa criou uma Rede de Percursos e Corredores, que se caracteriza por ser contínua, de malha fechada, articulada com os transportes públicos e com o Património Ecológico e Cultural e, até mesmo, articulada com os Concelhos vizinho (...). » (Fonte: http://www.ciclovia.pt/)

Bom... naturalmente que, enquanto ciclista citadina que utiliza a bicicleta nas suas deslocações diárias, considero que algumas ciclovias são melhores do que nenhuma mas, neste caso, parece-me um quanto megalómano falar de uma «Rede de Percursos e Corredores» quando o que temos são ciclovias aqui e ali e, por vezes, sem qualquer articulação entre elas.

Mas não ficamos por aqui ...

A C.M.L. refere que a rede se caracteriza « por ser contínua ». Ora, não sou especialista em planeamento urbanístico e, o meu conhecimento sobre infraestruturas urbanas baseia-se apenas na utilização que faço delas mas, se tivesse de de adjectivar as ciclovias de Lisboa, "contínuo" não seria, de todo, a minha opção (talvez a minha escolha recaísse sobre qualquer coisa como "atribulado" ou "manhoso").

sexta-feira, 28 de março de 2014

O Infame Ciclista


Foi ontem anunciado no mural da PSP que, no período compreendido entre 1 e 4 de Abril, seria promovida a « realização diária de acções de sensibilização e fiscalização de trânsito especialmente direccionada aos condutores de velocípedes no que respeita ao cumprimento do Código da Estrada e suas recentes alterações ».


Posto isto, já posso imaginar que teremos os carros patrulhas estacionados em pontos estratégicos da cidade e os senhores agentes a mandar os ciclistas encostar.


- Ora muito bom dia ! - diz o Sr. Agente.
- Bom... dia ... - responde o ciclista confuso.
- Posso saber porque é que estava a circular junto à berma ? 
- Porque se ocupo o meio da faixa os automóveis fazem-me razias ...
- Pois. Vou ter de o autuar. O sr. ciclista tem de ir mais ao centro da via. Não ouviu falar das alterações ao Código da Estrada ?



Mas, se continuarmos a ler a notícia percebemos que afinal o cerne da questão não são as alterações ao Código ... não ... Ora reparem:  « esta operação tem por objectivo dissuadir os comportamentos de risco dos condutores de duas rodas, de forma a incrementar os sentimentos de direito e dever, dinamizando uma verdadeira cultura se segurança rodoviária para todos os utentes da via ». 

Basicamente a ideia que passa é que a dinamização da tal cultura de segurança rodoviária para todos os utentes passa por dissuadir os comportamentos de risco dos condutores de duas rodas. Esses bárbaros!

quinta-feira, 13 de março de 2014

Viver Perigosamente ... ou não ?

Quem anda de bicicleta sabe que, o que não falta, são pessoas a dar bitaites sobre tudo e mais alguma coisa: que o seguro é obrigatório, que não podemos andar aos pares, que temos de andar pelo passeio, que a bicicleta tem de ter chapa de matrícula para andar na estrada ... Enfim, um sem número de ideias criativas que partem, muitas das vezes, de pessoas que não andam de bicicleta mas que, ainda assim, gostam de dar o seu contributo.

Ora, na semana passada e, curiosamente, duas vezes no mesmo dia, ouvi o bitaite do capacete. O primeiro, partiu de um peão a quem cedi passagem na passadeira, que fez questão de gritar:

« OLHE QUE O CAPACETE É OBRIGATÓOOOORIO ! »


Normalmente, faço um "sim sim", com a cabeça, sorrio e sigo viagem. Eles ficam contentes e eu não me aborreço.

Mas à noite, quando estava parada num dos semáforos do Campo Grande, fui novamente interpelada por um grupo de cidadãos preocupados que depois de umas quantas observação sobre a "grande máquina" que eu tinha enquanto imitavam o som de uma mota, fizeram questão de me alertar para o facto de que « Tens de usar capacete senão és multada ! » .

Apesar de ter ideia de que não é obrigatório, fiz uma pesquisa (não fosse o Código da Estrada ter sofrido alguma alteração que eu desconhecesse) e parece que afinal não há nenhuma obrigação de usar o capacete.




Ainda assim, parece que é uma questão que dá muito que falar e, se algum dia quiserem semear a discórdia entre ciclistas, puxem do assunto do uso do capacete. Depois, é só pedirem uma mini, um pratinho de tremoços e recostarem-se a assistir ao esgrimir de argumentos entre os que são a favor da obrigatoriedade e os que são contra.



Sob a égide do "quem te avisa, teu amigo é" surgem os defensores da obrigatoriedade do uso do capacete. São pessoas zelosas e que, em alguns casos, já sentiram na pele o que é ter um acidente de bicicleta em que o capacete fez realmente a diferença. Não vamos dizer que a sua preocupação não é legítima, porque é.

Do outro lado, temos quem não seja a favor desta obrigatoriedade, por considerarem que o risco associado à utilização da bicicleta é mínimo e que, adoptando uma condução prudente, a probabilidade de ocorrência de um acidente é pouco significativa. 

Até agora, tanto os argumentos de uns como os de outro, me parecem bastante realistas e não necessariamente contraditórios.




O problema começa quando tentamos impor o nosso ponto de vista. É importante que tenhamos em conta que, o estilo de vida associado à bicicleta não é uma religião. Como tal, cada ciclista deverá ter, acima de tudo, liberdade de escolha.




É verdade que usar o capacete pode constituir uma mais valia em caso de acidente. Mas, devemos ter a possibilidade de optar por correr ou não esse risco. Afinal de contas, é a nossa massa encefálica que poderá, eventualmente, ficar derramada num passeio...







Naturalmente que, com esta liberdade de escolha, vem também a obrigação de respeitarmos a opção dos outros, ainda que seja diferente da nossa. 

Achamos que o capacete é um factor importante na salvaguarda da integridade física do ciclista ? Opinião perfeitamente válida. 

Usemo-lo então! Branco, preto, colorido, com ou sem luz intermitente atrás. O que importa é que nos sintamos seguros. 


Temos noção dos riscos existentes no percurso que fazemos e achamos que o capacete não é essencial ? Opinião igualmente válida.

Andemos então de cabelos ao vento.



Não esqueçamos que, aquilo que nos une, enquanto utilizadores de bicicleta, é muito mais vasto do que aquilo que causa discórdia. Por isso, com ou sem capacete, o importante é que partilhamos o gosto por dar ao pedal.





















 

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Mais direitos ... menos prudência ?

Há quem defenda que, desde a entrada em vigor das alterações ao Código da Estrada, os automobilistas andam "mais agressivos". 




Nas redes sociais multiplicam-se os testemunhos de ciclistas que, a determinado ponto do seu trajecto diário, se viram alvo de razias propositadas, buzinadelas e até um ou outro    « ISSO É PR'ANDAR NO PASSEIO!!! ».



Mas ... (e correndo aqui o risco de ser crucificada numa bicicleta enquanto me atiram câmaras de ar e garrafas de óleo de corrente): estarão os automobilistas mais agressivos ou nós, ciclistas, menos cautelosos ?


Vejamos: quando não estamos no nosso "ambiente natural", que até há bem pouco tempo poderia ser representado pela estrada, estamos naturalmente mais alerta. Um pouco como... quando roubamos a última bolacha do pacote (e o deixamos vazio no armário) ou quando tentamos entrar sorrateiramente no elevador da estação do metro apesar de sabermos que o seu transporte aí é proibido. Tentamos ser discretos e, sobretudo, estamos em alerta.


Com as alterações vieram mudanças bastante positivas que, como sabemos, nos conferem direitos que não tínhamos com o propósito de criar condições para que possamos circular em segurança. Será que ... ao termos esta segurança ilusória (ilusória no sentido que não existe, na prática, uma barreira física que impeça que um automobilista adopte uma condução que possa colocar em risco a integridade do ciclista, como é o caso das razias) teremos baixado as defesas e, consequentemente, estaremos menos prudentes ?


Qual a vossa opinião e, o que mudou na forma como circulam ?



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Mito 6: Quando chover vou molhar-me e depois fico doente


Se forem como eu, a opção de conduzir a bicicleta com uma mão enquanto, com a outra, seguram o vosso delicado chapéu de chuva, está totalmente fora de questão! Não porque ache que é uma má ideia, mas porque estou certa de que ficaria a conhecer o alcatrão mais de perto.

Ora, posto isto, chegamos a um novo mito que assombra quem quer começar a andar de bicicleta e que serve de desculpa sempre que a meteorologia anuncia possibilidade de aguaceiros, céu nublado ou vento forte: "quando chover vou molhar-me e depois fico doente ". E todos sabemos que um ciclista doente é um ciclista em sofrimento (sobretudo quando o médico lhe diz que está proibido de pedalar enquanto não melhorar).

No entanto, se perguntarem a quem faz da bicicleta o seu meio de transporte diário se a chuva é um problema, o mais provável é terem um "não" como resposta e existem até aqueles ciclistas para quem pedalar à chuva é um prazer. 

E para quem ainda não esteja convencido, que tal a opinião de alguns dos mais acérrimos defensores de pedalar à chuva ?








Parece que afinal, há quem pedale à chuva e que o faça com gosto. Mas, naturalmente que é importante termos o equipamento adequado e, quando falamos em "adequado" temos de ter em conta que, ao contrário do que acontece quando vamos de carro ou transportes públicos, estamos totalmente expostos à chuva, ao vento e ao frio. 




Como este foi o primeiro ano de Inverno em duas rodas da Costureira Ciclista, confesso que ainda não estava totalmente preparada para enfrentar as chuvas mais fortes e apanhei duas daquelas molhas em que, a determinado momento, só restava encolher os ombros por ser impossível a situação piorar. Resultado: gripe, com direito a tosse, febre, dor de ouvidos e afins. Basicamente estive com um pé no "outro lado".







Podem agora dizer: 

« Ah mas nós então temos razão! Andaste de bicicleta à chuva e ficaste doente por causa disso ! »


Não, nada disso. Reparem que nem a chuva, nem o frio são responsáveis pela transmissão do vírus da gripe, mas sim os contactos directos ou indirectos com uma pessoa infectada. Posto desta forma, andar de bicicleta até minimiza o risco de contrairmos gripe dado que não temos um contacto tão directo com outras pessoas como teríamos se fossemos, por exemplo, de metro ou autocarro.

A questão aqui é o comportamento que adoptamos. Naturalmente que, se já tivermos alguns sintomas de gripe e, ainda assim, não nos protegemos da chuva e do frio, o desfecho mais provável é sentirmos um agravamento dos sintomas. E no meu caso, foi o que aconteceu.

Mas nada temam vós que quereis começar a pedalar pelo meio das intempéries porque há soluções, sugestões e forma de o fazer!

Vejamos aqueles que são os conselhos dados por quem anda à chuva:


1. Mantenham-se secos

Quanto mais molhados ficarem, mais frio vão ter e, estarem molhados e frios não augura nada de bom (para além de não ser nada confortável, sobretudo se tiverem de trabalhar todo o dia assim).

As sugestões são muitas, e mais uma vez, damos voz a quem entende do assunto:




2. Tenham um Plano B

Pode acontecer terem mesmo muito azar e, apesar de terem todo o equipamento para pedalarem à chuva, por alguma razão não o levaram. O melhor é, fazerem como a Ellen Morales e terem uma muda de roupa a postos. Se tiverem algum armário ou cacifo no vosso emprego, melhor ainda!



3. Não se esqueçam que os pés também fazem parte

Muito bem: temos o casaco impermeável, as calças impermeáveis, o capacete que ajuda a proteger da chuva e... uns ténis de pano. Ao passarmos pela primeira poça vamos rogar pragas e dizer que se o arrependimento matasse certamente aquele seria o nosso último dia. 


Mas não vale a pena começarem já a dizer que é precisamente por causa disto que não vão de bicicleta... Há soluções para tudo e, neste caso específico, até mais do que uma! Uns ténis ou umas botas impermeáveis podem ser uma boa solução e, provavelmente a mais prática. 

« Mas eu não gosto de botas nem de ténis impermeáveis e quero andar com ténis de pano durante todo o ano! Parece que não dá mesmo para ir de bicicleta assim ». 

Nesse caso, podemos comprar umas capas para proteger os pés, como sugere o Paulo Jorge:





6. Protejam os olhos

Embora não seja algo muito sugerido, é frequente cruzar-me com ciclistas que utilizam óculos quando está a chover, o que me leva a crer que são úteis e devem fazer alguma diferença. Não posso no entanto falar por experiência própria porque nunca experimentei usar uns durante um percurso à chuva mas, de acordo com as dicas para pedalar à chuva do Active.Com, recomenda-se :

  • o uso de uns óculos de ciclismo com lentes transparentes ou amarelas
  • um boné de ciclista por baixo do capacete para escudar da chuva
  • aplicação de spray anti-embaciamento nós óculos


5. Sejam persistentes

Pedalar à chuva. Há quem adore a sensação da água na cara, há quem deteste e há aqueles que depende do lado para que acordaram. 

O importante aqui é apreciarmos o passeio e não nos sentirmos obrigados a andar à chuva apenas porque há muita gente que o faz. Mas, não deixem que o facto de estar a chover vos impeça de descobrir se gostam ou se detestam pedalar à chuva.

E quem sabe, podem sentir-se de tal forma arrebatados pelo prazer de pedalar à chuva que, tal como o Eliseu, chegam à conclusão de que


« Não há melhores dias do que aqueles em que já nos equipamos na firme convicção de que vamos mergulhar num mar de aventuras »

(http://biclalx.blogspot.pt/2014/01/chuva.html)








sábado, 11 de janeiro de 2014

Próximo passo: World Domination!




Quando comecei a ir de bicicleta para o emprego, senti-me um pouco como a Bekka Wright e era frequente fazerem-me perguntas como:


- Vens de onde ? 

- Não tens medo de andar no meio dos carros ?!

- Então e quando sais à meia noite vais de bicicleta ?

- Não é perigoso... ? Não tens medo de ser assaltada ?

- Então e quando começar a chover ?


Outras vezes era sobre a bicicleta ...

- Essa é daquelas que se dobra, não é ?

- É muito pesada ?

- É prática ?


Notei que, aos poucos, a bicicleta passou a fazer parte, não só do meu dia a dia, mas também do dia a dia dos meus colegas que até um nome lhe deram: Maria Francisca.


Claro que, chegar de bicicleta continua a arrancar uns quantos sorrisos porque « És maluca! » 


Maluca ou não, noto que alguns já estão contagiados com "o bichinho da bicicleta" e, não tardará até não haver volta a dar!


M U A H A H A H A H A H A H A H A 





Os sintomas são óbvios. Uma colega, que sempre gostou de pasteleiras, decidiu comprar uma para ela e outra para a filha. Uma outra optou por, neste Natal, oferecer bicicletas aos sobrinhos que, segundo diz, estão a adorar e a aprender a equilibrar-se com bastante facilidade. E, a semana passada, a primeira coisa que ouvi quando cheguei foi um « Por sua causa já andei na Decathlon a experimentar as dobráveis! Sou capaz de comprar uma ... ».

E é assim que um "pequeno gesto" como o de levar a bicicleta comigo todos os dias para o emprego, contribui para desmistificar algumas ideias existentes em torno da sua utilização como meio de transporte mas, sobretudo, contribui para a mudança na forma como a bicicleta e respectivo ciclista são vistos.

Hoje em dia, são os meus colegas quem, com um olhar acusatório e dedo espetado me perguntam:


« Então onde é que está a Maria Francisca ?! »


E é bom que haja um bom motivo... caso contrário ...