segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Era o que faltava!

Costuma-se dizer que "de pequenino se torce o pepino". Geralmente este ditado tem implícita a ideia de que a aprendizagem começa em novo mas, curiosamente, parece-me que há pessoas que se regem mais pelo "faz o que eu digo, não faças o que eu faço".


« E de onde é que vem agora essa conversa toda e o que é que isso tem a ver com bicicletas ? » - perguntam vocês.


Duas palavras: Jardim Zoológico

Para uns, um passeio. Para mim, o Gate to Hell



A Costureira não é esquisita mas, há três coisas que a conseguem tirar do sério: 
  • histeria colectiva
  • a estupidez de algumas pessoas
  • criancinhas aos gritos sem razão


E alguém consegue adivinhar onde é que se encontra tudo isto ? Pois... no Jardim Zoológico.

E o que é que isto tem a ver com bicicletas ? Nada.

Tem a ver, sim,  com civismo. Ou, neste caso, com uma completa ausência dele e com as consequências de transmitir esta postura de "rei na barriga" às crianças.

E porquê ?

O motivo é simples: para os vossos filhos, vocês são o modelo a seguir. 

Por isso, basicamente, se forem uns porreiros, os miúdos vão ser uns porreiros.
Se forem palermas, os putos vão ser palermas.

Se estimularem os miúdos para as actividades ao ar livre, provavelmente vão ser putos curiosos, enérgicos e saudáveis.
Se os trancarem no quarto com o computador, o mais certo é terem crianças apáticas, obesas e que ficam doentes se lhes cair uma gota de chuva na testa.

Se forem civilizados, os putos vão ser civilizados.
Se se comportarem pior do que os animais do zoo, então o melhor é enjaularem as crianças que sempre dão mais espectáculo do que alguns animais.


« Esta não deve gostar de crianças! » - dirão algumas pessoas




Aqui, a questão não é essa mas sim o comportamento dos pais, os exemplos que dão e os valores que transmitem aos filhos.


Vamos então pegar no caso girafa.

Sábado, 23 de Agosto. Recinto das girafas.

Em torno do recinto são visíveis vários avisos: 
« não provoque os animais » 
« não alimente os animais ».
Uma girafa mais curiosa aproxima-se de um ponto onde estava um amontoado de pais com os respectivos filhos. Um dos pais decide apanhar uma folha que estava no chão para o filho dar a girafa. A girafa estica o pescoço e a língua e come a folha que estava na mão da criança. Subitamente, todos os pais entram numa onda de histeria colectiva: apanham folhas do chão, inclinam-se sobre a cerca, esticam os braços dos filhos para alcançarem a girafa. Há inclusive uma mãe que pega na filha com cerca de 2 anos e a passa por cima da rede. Há um miúdo que transpõe a rede e entra no recinto. Todos se empurram e apanham freneticamente as folhas caídas no chão. Parecia a primeira fila de um concerto do Tony Carreira. Tudo isto apesar do aviso: « não alimente os animais ». Ninguém quer saber. 



Depois temos o caso réptil

Sábado, 23 de Agosto. Reptilário.

Em todos os vidros um aviso « não bata do vidro ».
Um pai decide bater nos vidros para "acordar a cobra".
- Olha ali! Olha ali! (PUM PUM PUM) Olha! olha! Ela tá a dormir (PUM PUM PUM)



Há certos momentos em que é bom não termos poder para concretizar os nossos pensamentos. Caso contrário, teria havido uma série de pessoas a ficar sem braço, e um outro a ser mordido por uma cobra venenosa e depois cair dentro do lago dos aligátor-americano.

Mas adiante.

O que é que se transmite às crianças ? 
Borrifa-te para os avisos! Queres bater no vidro? Bate no vidro!
Queres dar comida aos animais? Dá! 
Era o que faltava! Dizerem-me aquilo que posso e não posso fazer.
Paguei a entrada blá blá blá  Sou eu que pago o ordenado a estas pessoas blá blá blá


« Que exagero! São só uns sinais no Jardim Zoológico ! »


A questão é precisamente essa.
São "só" uns sinais. Umas regras. E o que é que se ensina ? A desrespeitá-las.
Claro que se houvesse fiscalização, a conversa era outra. 
Mas então... as regras só devem ser respeitadas quando há algum tipo de castigo?

Mais tarde, será só um semáforo vermelho (deste que a polícia não veja...)
Será só uma proibição de parar e estacionar (são só 5 minutos e toda a gente o faz...)
Será só uma proibição de circular em cima dos passeios (porque não ?)

Será só isto e aquilo. 
Coisas insignificantes. 
Coisas que não temos de respeitar porque temos mais que fazer.
Coisas que não temos de respeitar porque estamos acima das regras.
E tudo começou numa ida ao Jardim Zoológico.




























terça-feira, 19 de agosto de 2014

PSICOPATA TRESLOUCADO ESPANCA CICLISTAS

« É um desporto desgastante.... Por isso, mesmo quando não terminam nos primeiros lugares, gosto de ir ter com eles e dar-lhes uma palmada reconfortante nas costas. Afinal de contas, é bom chegar em primeiro lugar mas, nem sempre ganhar é tudo o que importa »

Este testemunho fictício, que deu origem ao título bombástico deste post, pretende ilustrar aquele que vem sendo o hábito na maioria das notícias que envolvem ciclistas, carros, seguros, operações STOP e código da estrada: tira-se o que interessa, realça-se o que gera polémica e criam-se títulos aos quais só faltam umas letras em néon a piscar. 








Pois é caros ciclistas, no final de Julho, quase de certeza que a maioria de nós se deparou com uma destas pérolas:


« Associações de ciclistas querem seguradoras de carros a pagar acidentes »
(O DRAMA!)

« Seguro automóvel deve pagar por acidentes causados por bicicletas »
( O HORROR !!)


« Seguro automóvel deverá vir a pagar por acidentes causados por bicicletas »
( A TRAGÉDIA!!!)



« Vais pagar!!!! Vais pagar!!!! »



Confesso que na altura em que estas notícias começaram a sair, achei a situação um bocado absurda. Uma onda de histeria colectiva parecia ter tomado conta das discussões, e a época de caça às bruxas estava oficialmente aberta (com direito a archotes e forquilhas, como nos bons velhos tempos). 



O cenário pitoresco que muitos artigos transmitiam era essencialmente este: 



Era uma vez, um ciclista fofinho de quem toda a gente gostava. Era uma espécie de Branca de Neve que pedalava pela cidade a assobiar ao som do canto dos pássaros. Tinha uma pequena horta ali em Telheiras, onde produzia produtos 100 % biológicos que depois distribuía pelos mais carenciados. Aquilo que não conseguia produzir, comprava no pequeno comércio local. 
Basicamente, era muito fixe.
Porque tinha uma bicicleta. 
Ah, e preocupações ambientais e não-sei-quê.



« Gosto de atropelar ciclistas e atirar lixo pela janela ! »


Depois, era uma vez um automobilista. Uma criatura vil e mesquinha. Como tem carro, de certeza que não tem preocupações ambientais. Como tem carro, é quase certo que anda em excesso de velocidade. 
Que estaciona em cima dos passeios.
Que tem uma "arma mortal" nas mãos. 
E que todo e qualquer acidente será, dê por onde der, culpa dele. 
E isto tudo porque o carro polui e ele tem mais é que andar de bicicleta. Mais nada! 





Bom... não sei qual a vossa opinião relativamente a este assunto mas, eu não podia estar menos de acordo com a perspectiva de um condutor automóvel, pelo simples facto de conduzir um carro, ser responsabilizado por um acidente causado por alguma manobra kamikaze de um ciclista tresloucado (pois, porque lá por andar de bicicleta, isso não faz de todos os ciclistas um exemplo a seguir. Há ciclistas e ciclistas. Tal como há automobilistas e automobilistas). 


« Mas nos outros países é assim! »  
Tudo bem. Que seja. Há muitas coisas que se fazem "nos outros países" com as quais eu não concordo. 


« Mas o condutor, como tem carta, tem a obrigação de ter mais atenção ! »
Ah sim ? Então e não há ciclistas com carta de condução ? Esse é um dos argumentos que vem sempre à baila quando se fala do direito a circular na estrada ...


« Ainda assim, o condutor tem de ter mais atenção e estar preparado. Porque tem carro e o carro tem potencial destrutivo » 
Eu também tenho potencial destrutivo quando estou de mau-humor. E nem preciso de carro! 
Agora fora de brincadeiras, a verdade é que há situações tão imprevisíveis que, por mais atenção que tenhamos, não conseguimos evitar. Sabem a quantidade de acidentes que há com cães nas auto-estradas? Ou com javalis em estradas rurais ? Podemos antecipar algumas situações de perigo e até adoptar uma condução mais defensiva mas, há situações tão improváveis que nem sequer as ponderamos. Quantas pessoas, quando circulam numa auto estrada pensa: «é melhor ir a 80 km/hora porque... nunca se sabe... pode aparecer um cão abandonado e eu não ter tempo de parar » ou « deixa-me cá reduzir a velocidade porque pode aparecer um cavalo vindo de nenhures »


Adiante.


Estava eu a dizer que se gerou uma onda de loucura e indignação porque ninguém se entendia. As associações de ciclistas diziam, supostamente, uma coisa. O ACP respondia, supostamente, com outra.

E "supostamente" porquê ?

Convido-vos a espreitar os links da MUBI e da FPCUB a respeito deste assunto.



Vão lá. Eu espero.





Já está ? 

E então ? Parece que afinal a história não é bem como aparece nas letras gordas.


Afinal ...
« Assim, ao contrário do que tem vindo a ser divulgado na comunicação social com meias verdades suportadas em citações parciais e descontextualizadas, a MUBi não defende qualquer agravamento dos seguros automóveis nem que estes tenham que compensar sempre e de forma definitiva as vítimas. Pelo contrário, caso estas venham a ser responsabilizadas pelo sinistro, cabe à seguradora o direito de vir a ser ressarcida de parte da compensação prestada ao utente vulnerável, em tribunal. » MUBI



Afinal...
« A bicicleta é também de entre os veículos que circulam na estrada, um dos que menos acidentes (e com menor gravidade) pode provocar. Também é daqueles meios de transporte que em razão da velocidade que atinge, menos danos corporais provoca (para além de muitas outras vantagens para a sociedade em geral - económicas, ambientais e de saúde pública). Mesmo sem seguro obrigatório, o condutor de velocípede (ou peão) não deixa de ser responsável e os seus bens não deixam de responder por isso. Tal como qualquer cidadão que provoque danos em bens pertencentes a terceiros. » FPCUB


Afinal andou tanta gente histérica por causa de um monte de tretas descontextualizadas.



Ah.... o milagre da manipulação das massas. E enquanto se apedrejam uns aos outros nas redes sociais com calhaus virtuais e comentários desvirtuosos, a atenção vai sendo desviada daquilo que realmente importa: a necessidade de melhorar e criar infraestruturas adequadas.



« hehehehe»









sexta-feira, 27 de junho de 2014

Bicicleta é coisa de Pobre!

Certamente que muitos de vós já ouviu falar, e provavelmente até acompanha, a MariaBicicleta, um trabalho documental da autoria de Laura Alves (jornalista, co-autora da Gloriosa Bicicleta e, mais recentemente do Acreditar) e Vitorino Coragem (jornalista, fotógrafo e documentarista).

Ora, estava eu a ler a entrevista que a Ana Isabel Almeida (que é professora de informática) deu para a Maria Bicicleta quando...


« Os meus alunos perguntavam: 
“Mas a professora não vem de carro porquê ?” 
E eu dizia que não tinha carro. 
“Então e uma mota ?” 
Ou seja, achavam que andar de bicicleta era ser pobre »

Pois é... andar de bicicleta é sinónimo de pobreza e, todos nós sabemos que ninguém quer ser encaixado nessa categoria marginal e marginalizada a que se chama de “pobre”.

Porque ser pobre é mau. Mas pior, porque ser pobre, parece mal ... E então rodeamo-nos de coisas inúteis, para nos sentirmos menos pobres, ainda que sejam essas coisas inúteis que nos arrastam para um estilo de vida cada vez mais instável, em que os gastos são consideravelmente superiores aos ganhos e só um louco acha que sai a ganhar. No entanto, no que diz respeito à ostentação, sem dúvida que andar montado num BMW parece “menos pobre” do que andar de bicicleta e, todos sabemos que ter um bom carro é a afirmação de que se está a viver "the portuguese dream".


« Deve ser um gajo importante ! » - dirão uns.
« G’anda máquina! Aquilo custa mais que a minha casa!» - dirão outros.


E, onde quer que passe, despoletam admiração...