segunda-feira, 14 de abril de 2014

Buracos, Buraquinhos e Túneis até ao Centro da Terra

De acordo com a Câmara Municipal de Lisboa, « O Município de Lisboa criou uma Rede de Percursos e Corredores, que se caracteriza por ser contínua, de malha fechada, articulada com os transportes públicos e com o Património Ecológico e Cultural e, até mesmo, articulada com os Concelhos vizinho (...). » (Fonte: http://www.ciclovia.pt/)

Bom... naturalmente que, enquanto ciclista citadina que utiliza a bicicleta nas suas deslocações diárias, considero que algumas ciclovias são melhores do que nenhuma mas, neste caso, parece-me um quanto megalómano falar de uma «Rede de Percursos e Corredores» quando o que temos são ciclovias aqui e ali e, por vezes, sem qualquer articulação entre elas.

Mas não ficamos por aqui ...

A C.M.L. refere que a rede se caracteriza « por ser contínua ». Ora, não sou especialista em planeamento urbanístico e, o meu conhecimento sobre infraestruturas urbanas baseia-se apenas na utilização que faço delas mas, se tivesse de de adjectivar as ciclovias de Lisboa, "contínuo" não seria, de todo, a minha opção (talvez a minha escolha recaísse sobre qualquer coisa como "atribulado" ou "manhoso").


Vejamos a definição de contínuo:

con·tí·nu·o 
(latim continuus-a-um)
adjectivo
1. Que não cessa. = CONTINUADOCONSTANTEININTERRUPTOSEGUIDOSUCESSIVO ≠ DESCONTÍNUO
2. Que não tem separadas umas das outras as partes de que se compõe.
3. Que é regular


Esta continuidade é, meus caros, uma ilusão ... E não me refiro apenas a ligações entre ciclovias (que, não sendo contínuas, nos forçam a saltitar entre estrada e ciclovia) mas, também às ligações na própria ciclovia que carecem muitas vezes de manutenção e ignoram por completo as especificidades das bicicletas que por lá circulam. Exemplos ? 

Por onde começar ? 


Talvez pelas crateras que ainda lá estão e que, no inverno, se transformam em apetecíveis piscinas que deixam qualquer ciclista indeciso quanto a continuar viagem... ou parar ali para dar umas braçadas. 


Depois temos um outro grande amigo dos pneus: os lancis dos passeios. Ora, faz todo o sentido, numa zona onde se pretende ligar a ciclovia, que não exista uma única rampa para o efeito ... Afinal de contas, as bicicletas são todas iguais e de certeza que estão todas equipadas com suspensão e pneus resistentes. Por isso, pessoal das bicicletas de estrada, bromptons e afins: fiquem em casa ou preparem-se para desmontar da bicicleta em cada troço de ligação desta rede "contínua".

Para terminar temos uma combinação fantástica: buracos + cruzamento + automóveis. Ah... pensavam que se ficava pelas piscinas e lancis ? Não meus caros! Esta ligação é um preciosismo como poucos há. Imaginemos, por exemplo, que a ciclovia não vos leva ao vosso destino e que vão ter de entrar na estrada, ali à esquerda... Não bastava estarmos atentos aos carros que vêm da direita e da esquerda, como ainda temos de andar a ziguezaguear entre os buracos. Basicamente, "um olho no burro, outro no cigano".






Mas não fiquemos por aqui ... e imaginemos que por acaso, até vamos ali para a Duque d'Ávila. Estamos de folga, não está a chover e apetece-nos ir beber um café e ver os ciclistas a passar (soou um bocadinho à taberneiro: «buber mins, comer tramoços e ber as gaijas!» mas, perceberam a ideia). 

Nesse caso, seguimos em frente... MAS: O QUE É ISTO?! Devo continuar ou fico já ali a chafurdar nas folhas ?


E lá vamos nós para o passeio. 

E lá vamos nós ser "postadrejados" (isto é, "apedrejados", mas com posts... no facebook)


« Este gajos andam no passeio! 
Não têm respeito por ninguém! S
e atropelarem um velhote num andarilho quero ver como é! 
Blá Blá Blá que não têm seguro! 
Blá Blá Blá que andam a destruir a via ... Blá Blá Blá 
Blá Blá Blá que não pagam imposto! 
Blá Blá Blá (aqui já a agitar tochas e forquilhas) »



Mas nós, ciclistas, sabemos que somos persistentes. E, mal ou bem, lá vamos contornando os obstáculos. Ainda que isso implique desmontar da bicicleta (o que é bastante prático!)
Imaginemos pedir o mesmo a um automobilista: « Agora saia do carro e empurre até ao outro lado da estrada! » Absurdo não é? Mas, ninguém estranha se o ciclista tiver de desmontar a bicicleta várias vezes quando circula nesta « Rede de Percursos e Corredores, que se caracteriza por ser contínua ».

Adiante.

Sobrevivemos aos buracos, às poças, ao cruzamento, ao amontoar de folhas. Contornámos a Gulbenkian e estamos quase a entrar na ciclovia da Duque d'Ávila ... e até já vamos a salivar a pensar num bruch ali no Velocité ou num dos famosos pães de Deus da Padaria Portuguesa quando: 



Acaba a ciclovia, temos de ir pelo passeio (mais uma vez dando motivos para alguma indignação por parte dos peões) e enfrentar mais crateras, um cruzamento e, como não podia faltar, os carris do eléctrico (que quando está molhado é P-E-R-F-E-I-T-O para cair).

Felizmente, o destino é já ali e podemos pensar tranquilamente na atribulada viagem que nos espera no regresso.

Ufa!

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