domingo, 5 de janeiro de 2014

Manipular para Reinar


Muito se tem discutido sobre as opiniões de Carlos Barbosa, Presidente do ACP, às alterações do Código da Estrada. Mas eis que entra um novo peão no jogo: Paulo Pereira de Almeida, um entusiasta da crucificação dos ciclistas a par da deidificação dos automóveis (consta que já está a ser construído um santuário ali para os lados do Entroncamento).


Antes de mais, espreitem o artigo de opinião publicado ontem no Jornal de Notícias cujo título, por si só, já deixa antever o que aí vem:





Se já leram o artigo e são ciclistas, estarão provavelmente a espumar pela boca e a pensar criar um evento no Facebook chamado Vamos Furar os Pneus do Carro do Paulo Almeida. 

Se já leram o artigo e são automobilistas, deverão estar a acenar com a cabeça e a concordar que os ciclistas deviam realmente ser banidos das estradas e que estas alterações são uma vergonha que só mostra que "somos um País do terceiro mundo" e afins.


Eu chamo-lhe: manipular para reinar.




Ao contrário da ideia que anda a ser vendida nos media, os automobilistas e ciclistas já coexistem há bastante tempo e têm vindo, aos poucos, a aprender a respeitar-se mutuamente. Não é novidade nem para uns, nem para outros, que há comportamentos a adoptar para garantir a segurança de todos.

Mas isso é algo que passa completamente ao lado deste artigo - e de muitas opiniões que têm sido omitidas - revelador de um genial brilhantismo, e que certamente irá colocar Paulo Pereira de Almeida na corrida às personalidades mais carismáticas e influentes de 2014.


Vamos lá ver:


"só por pura inércia - ou por completo desligamento da realidade de Portugal - se pode vir a introduzir no Código da Estrada medidas que equiparam os ciclistas aos automobilistas, sem pensar minimamente na especificidade do relevo do País (Portugal não é a Holanda, onde grande parte do território é plano e convida ao uso da bicicleta)"

A questão aqui é que não é o "território plano" que "convida ao uso da bicicleta" mas sim, a ciclabilidade da cidade. Ou seja, a existência de medidas (como as alterações ao Código da Estrada) e de infraestruturas que permitam ao utilizador da bicicleta fazer dela o seu meio de transporte prioritário. 

Mas já que o autor do artigo entra em comparações com a Holanda, vamos ver as opiniões de alguns estudantes de Erasmus das chamadas cidades planas, publicadas na tese de mestrado de Paulo Guerra dos Santos:

Adam R.: "a subida não é nada de especial"
Leandro Gatti: " "em Lisboa são só subidas e descidas" 


De notar que aqui não estamos a falar de uma teoria escrita confortavelmente em frente a um computador sem testar o argumento. O autor desta tese é na verdade um engenheiro civil, também autor do blog 100 dias de bicicleta que, com base na experiência e após um intenso estudo do terreno, pôde concluir que «18 km planos de toda a frente ribeirinha, junta-se o planalto central, uma extensa área praticamente plana, que ocupa mais de metade da área urbana da cidade».




Mas, ainda que o ciclista tenha, efectivamente, algumas subidas pelo caminho, isso não pode, de todo, ser usado como argumento para lhe negar o direito de usufruir do espaço público. Seria o mesmo que vedar o acesso dos automobilistas à Serra da Estrela quando há neve porque, ao contrário do que acontece em países como a Alemanha ou Suécia, os carros não andam equipados com pneus e correntes para a neve e gelo e o terreno assim torna-se perigoso e "não convida" à condução automóvel.





"para acrescentar ainda mais medidas que fazem dos automobilistas uma espécie de "cidadãos de segunda" nas estradas"

Eu acho que esta é a minha afirmação favorita! Adoro a expressão "cidadãos de segunda". A-D-O-R-O! É tão inspiradora que acho que vou começar a utilizá-la no meu dia a dia, em momentos que me sinta particularmente irritada com alguma coisa e me faltem argumentos. 

- Mas como assim, não há pães de leite porque o padeiro teve uma folga extra depois do Natal ?!?! SOU ALGUM CIDADÃO DE SEGUNDA ?!?!?!



O direito da igualdade está consagrado na Constituição da República Portuguesa e portanto não há cidadãos de primeira e cidadãos de segunda, sejam eles ciclistas ou automobilistas. As alterações visam promover a partilha da via, tornando-a mais segura para todos os que nela circulam e não, como Paulo Almeida defende, beneficiar uns em detrimento de outros.

O que talvez este brilhante autor desconhece, é que os automobilistas já cumpriam estas normas mesmo antes de existirem. 
( e os automobilistas sabem-no bem)

Porquê ? 

Porque ao contrário da ideia que tenta passar, ciclistas e automobilistas não são uns selvagens. São cidadãos, com os mesmos direitos e deveres que, por força das circunstâncias ou por opção, escolheram o carro ou a bicicleta.

Porque convivemos, imagine-se, diariamente por esse Portugal fora e, tanto uns como outros, têm vindo a aprender a adoptar uma condução responsável e defensiva. 


Mas vamos fazer uma loucura e entrar no campo do ridículo e do absurdo.
(a partir daqui, caros leitores, estão por vossa conta)


A ideia que tenta vender é que, os desgraçados dos automobilistas, são relegados para segundo plano por causa de um punhado de medidas que os afecta. 

Estaremos aqui a ignorar que Portugal é o país da Europa com mais auto estradas per capita que, pasme-se, são construídas para ... os automóveis. Incrível! E o estacionamento ? Bom... só em Lisboa existem aproximadamente 50 parques de estacionamento automóvel enquanto que, muitos ciclistas continuam a ter de deixar as bicicletas presas a postes devido à falta de opções.




Mas pronto... fechemos os olhos a esta realidade e continuemos a falar destes usurpadores da estrada que dão pelo nome de ciclistas.


"o legislador (leia-se: o MAI) cria ainda o conceito de "zonas de coexistência" nas cidades; esta é uma verdadeira "pérola" da habitual incompetência legislativa, já que se trata aqui de zonas em que os condutores não poderão circular a mais de 20 km/h..."

Então mas... esperem lá! Já não percebo nada disto. 

O Sr. Paulo Almeida considera os automobilistas "cidadãos de segunda" porque, a seu ver, são lesados com as alterações ao Código da Estrada. Contudo considera uma "incompetência legislativa" a criação de zonas de coexistência que visam tornar a cidade num espaço de que todos possam usufruir. 

Mas então, ao não criarmos a cidade num local para todos, não estaremos a beneficiar o uso automóvel em prejuízo da utilização por parte de todos ? Isso torna os cidadão que não utilizam o carro em quê ? Cidadãos de quarta ?



Mas vou ser franca (e sei que há leitores que vão ficar furiosos e chamar-me "vira casacas") : aqui concordo consigo e acho que é ABSURDO um carro não poder circular a mais de 20 km / hora nessas tais zonas de coexistência!



Quer dizer... anda uma pessoa a investir dinheiro a comprar um carro de alta cilindrada para poder andar a 250 km/hora numa AE em que o limite é 120 e depois vez o palerma do legislador falar de zonas de coexistência!



Acho que que os carros até deviam poder andar nos passeios! Sim senhor, nos passeios! Aliás, acho que em vez de andarem a gastar dinheiro com a porcaria das ciclovias, deviam construir uns túneis subterrâneos para os peões fazerem a sua vidinha diária (passear com as crianças, ir às compras, ir para o emprego, praticar jogging)  e acabar se vez com estas ideias parvas de criar uma cidade para todos. Já não posso ouvir falar de "cidades sustentáveis", "mobilidade urbana" e "diminuição da poluição" !



"Acrescente-se ainda que este Código da Estrada prevê - neste ataque continuado a automobilistas em favor dos ciclistas - que sejam criadas passadeiras especiais para velocípedes, que terão aqui prioridade e nas quais os condutores serão obrigados a ceder passagem"

O HORROR!!!! Já imaginaram o desgaste que isso vai provocar ? É que não são só travões ... É o tempo que se perde! E todos sabemos que 30 segundos podem fazer toda a diferença.

Mas sabe que mais ? Grande parte dos condutores já cede a passagem! Aliás, há uns que até o fazem quando um peão mais aventureiro atravessa fora da passadeira! Chama-se a isso: civismo! Algo que assiste a muitos condutores e ciclistas, apesar de neste artigo se pretender dar a entender o contrário.


"Por fim - e numa medida verdadeiramente "revolucionária" - as bicicletas passam a poder circular na estrada mas podendo dois ciclistas circular em paralelo e ocupar por inteiro uma das faixas de rodagem tornando, portanto, a sua ultrapassagem ainda mais perigosa."


Perigosíssima! Aliás, é muito mais seguro, o ciclista ir encostado à berma (onde existem buracos, detritos e grelhas de escoadouros) e o automobilista tentar passar sem ultrapassar , aumentando consideravelmente o risco de queda e atropelamento.



Creio que, a maior parte dos condutores tem carta de condução, certo ? Ultrapassar não é novidade para eles. Fazem-no diariamente e alguns com bastante destreza. Para quê estar a fazer disto um bicho de sete cabeças ? 

Ultrapassar uma bicicleta é perigoso ?! 
Então e se for uma mota ? É menos perigoso ? 

Parece-me a mim que a manobra é sempre a mesma: sinalizar, mudar de faixa, ultrapassar, sinalizar, regressar à faixa.


"Depois, e em segundo, estranha--se sobretudo a ausência de normas e regras que conduzam realmente a uma estrada mais segura, como seria, por exemplo, o caso dos limitadores e inibidores de condução em veículos pesados e autocarros de transporte escolar "

A cereja no topo do bolo. As alterações ao código da estrada visam tornam a estrada mais segura, para TODOS os que nela circulam e não o contrário.


A solução?

Um passeio por Lisboa de carro e de bicicleta.


Eu já fiz os dois. Será que o autor do artigo também ?



10 comentários:

  1. texto de merda. devias ser enrabado pela selecção do senegal.
    Lisboa é uma cidade (das 7 colinas) com relevo relativamente impróprio para o ciclismo como meio de transporte para o comum mortal, a menos que sejamos todos ciclistas de montanha. eu próprio ando de bicicleta e deixo-a em casa para ir trabalhar e ando de transportes pois nem nos próximos 20 anos haverá coexistência entre ciclistas e automóveis com a dimensão que essa cabacinha deve supor.
    Como o Paulo Almeida dá a entender, não é que os conceitos em si sejam maus, o que é má é a sua aplicação dentro da nossa realidade.
    E curiosamente não fala de nada sobre a obrigatoriadade dos seguros para ciclistas.
    Textos pseudo-intelectuais com a mania que temos piada é muito fácil, difícil é tirar as palas dos olhos.

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    1. Caro R. Mendes,

      Antes de mais, agradeço o seu contributo para o blog. Como tenho vindo a frisar, é importante que ciclistas e automobilistas expressem as suas opiniões, por mais díspares que sejam, pois só assim podemos conhecer pontos de vista diferentes do nosso.

      Tal como o R. Mendes, também eu sou ciclista, deslocando-me diariamente em Lisboa sem ser, no entanto, uma "ciclista de montanha". Pessoalmente, não considero que o relevo seja "relativamente impróprio para o ciclismo como meio de transporte para o comum mortal". No entanto, compreendo que, em alguns percursos, possa ser difícil adoptar a bicicleta como único meio de transporte e aí resta-nos o carro ou, como o R.Mendes faz, os transportes públicos.

      Concordo consigo quando refere que a coexistência entre ciclistas e automobilistas demorará algum tempo a atingir a dimensão que vemos em países como a Holanda e é precisamente por esse motivo é que se torna importante debater a questão, e avançar com medidas que contribuam para a mudança do paradigma existente.

      Quando ao facto de não abordar, neste artigo, a questão da obrigatoriedade dos seguros para ciclistas, a razão prende-se com o facto deste assunto ter já sido abordado no post « Hostilidades dentro de 3...2...1 » . Deixo deste já o convite para a sua leitura e, claro, para comentar e expor o seu ponto de vista.

      http://acostureiraciclista.blogspot.pt/2014/01/hostilidades-dentro-de-3-2-1.html

      Abraço

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    2. É de facto impossível tirar as palas dos olhos a alguém que usa este tipo de linguagem. Obrigado pelo seu comentário, demonstra de que lado estão os broncos. Felizmente a maioria dos portugueses são pessoas civilizadas e ansiosas de copiar os bons hábitos dos países mais evoluidos,. Se todos fossem como você, estaríamos condenados a que nenhum progresso se adequasse à nossa realidade. E reparei que conhece bem a intimidade da selecção do Senegal

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  2. "Parece-me a mim que a manobra é sempre a mesma: sinalizar, mudar de faixa, ultrapassar, sinalizar, regressar à faixa."

    Todo condutor civilizado , consciente pensa assim!

    E concordo com você e de forma prática, eu também sei que há civismo, mesmo em lugares onde as condições de trânsito são desfavorecidas para ambos de condutores de carros, bike e pedestres (peões), vivemos a todo momento e ainda mais hoje graças a um movimento, muito além de simples subir numa bike ou bicla,bici há a conscientização dos direito e deveres dos ciclistas em prol justamente da coexistência!

    E outra, Além de coexistência temos que nos fazer visíveis, poque? Porque também somos condutores e como tal temos que nos fazer existir tanto para nossa segurança, e fundamentalmente como nosso compromisso por fazemos parte do trânsito.

    No Brasil onde se vê muitas adversidade por sua enorme geografia e diversidades regionais ainda se tem muito o que fazer em termos de Leis para ciclistas ( direito e deveres), mas civismo tem sim senhores e mesmo sendo um pais em desenvolvimento ( terceiro mundo) eu acredito que lei não deve ser para beneficiar algum tipo especifico, mas buscando adequar a realidade que hoje é proporcionalmente diferente de 10 anos atrás! Sigamos os exemplos prático e efetivos para todos os condutores!

    Beijos brazucas ao ciclistas lusos!

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    1. Olá Ellen,

      Antes de mais, muito obrigado pelo teu testemunho! É sempre bastante interessante poder partilhar aqui a opinião de um colega ciclista de "além fronteiras".

      Beijos

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  3. Que o Paulo seja um ignorante arrogante, sendo professor, já é mau. Pior é um jornal sério como o DN não ter o mínimo cuidado com a qualidade dos artigos que publica

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  4. Caro R. Mendes. Uma pessoa, de facto, sente-se muito básica no pensamento quando escreve um texto informativo, criativo, julgando que até escreve umas coisas interessantes, e a reacção de quem lê é «texto de merda. devias ser enrabado pela selecção do senegal». Tal afirmação, vinda dos seus dedos, revelam uma prosa do mais precioso requinte, e muito provavelmente A Costureira Ciclista nunca conseguirá atingir o seu refinamento intelectual.
    Posto isto, apenas um comentário a algo que escreveu: «Lisboa é uma cidade (das 7 colinas) com relevo relativamente impróprio para o ciclismo como meio de transporte para o comum mortal, a menos que sejamos todos ciclistas de montanha.» Anda, pelos visto, muita gente enganada. Diariamente vejo pessoas a usar a bicicleta nas mais diversas partes da cidade, com mais ou menos relevo. Ainda há pouco subi à Ajuda, usando as mudanças mais leves da bicicleta. Ah, claro, mas eu sou campeã olímpica de triatlo e passo 15 horas por semana no ginásio, tinha-me esquecido dessa parte... Agora a sério, ironias à parte, mas o R. Mendes acha mesmo que não se consegue pedalar em Lisboa? O que é um comum mortal? É que vejo tanto crianças como pessoas mais velhas a pedalar sem receios. E quando estão cansados, vão a pé. Simples. Ou será que é o R. Mendes que é tão fraquinho de pernas como é de cérebro?
    Atentamente.
    L. Alves

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  5. Já li e reli o texto do Paulo Almeida e chego à conclusão que o senhor deve ter um trauma em relação às bicicletas...sei lá talvez a primeira vez que pegou numa, partiu-se o selim e ele ficou sentado no espigão.

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  6. Já li e reli o texto do Paulo Almeida e chego à conclusão que o senhor deve ter um trauma em relação às bicicletas...sei lá talvez a primeira vez que pegou numa, partiu-se o selim e ele ficou sentado no espigão.

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  7. O Sr. Paulo Almeida devia ler isto, só naquela...

    http://www.thetimes.co.uk/tto/public/cyclesafety/article3755751.ece



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