segunda-feira, 26 de maio de 2014

Constrói-as e eles virão

« If you build them, they will come » 
(se os construíres, eles virão)

Embora esta frase, atribuída a Theodore Roosevelt se refira à construção do Canal do Panamá, parece-me que se encaixa perfeitamente se o objectivo for debater ideias sobre a forma como podemos aumentar o número de ciclistas a circular na cidade e, consequentemente, diminuir o tráfego automóvel.

O que vem primeiro, afinal ? As ciclovias ou os ciclistas ? 

O que será necessário para que quem usa o automóvel como meio de transporte, percepcione a bicicleta como uma alternativa vantajosa, viável e, acima de tudo, segura ?

Poderíamos aqui falar das alterações ao Código da Estrada, da forma como o ciclista passou a usufruiu de determinados direitos e de como isso veio aumentar a sua segurança.
A questão que agora se coloca é: será mesmo assim ? 

Quem é que nunca tinha circulado nas estradas, a par com os automóveis, antes de saírem estas alterações ? Quem faz da bicicleta o seu meio de transporte sabe que isso seria insustentável. Assim sendo, parece que a maioria de nós terá andado, durante bastante tempo, a pedalar à margem da Lei.

Ora, a questão aqui torna-se simples: há muitos ciclistas nas estradas. O que fazer ?

Bom...se proibimos que circulem na estrada, isso será visto como um incentivo à utilização do automóvel, o que vai completamente contra a sustentabilidade que tem sido promovida e incentivada noutros países europeus. Mas, por outro lado, não existem alternativas viáveis visto que, para já, temos uma ciclovia aqui e outra ali, e não uma verdadeira rede que permita circular por toda a cidade, ou até mesmo entre cidades. 

Não havia muito que se pudesse fazer... sobretudo se tivermos em conta as repercussões que qualquer decisão iria ter não só em termos políticos, como ao nível da imagem do país. Imaginemos por exemplo que se proibia a circulação das bicicletas na estrada, e que os ciclistas que o fizessem eram efectivamente multados... Se Portugal já não goza de particular fama, imaginem o gigantesco passo atrás que tais medidas implicariam. 

A solução? Permitir que as bicicletas andem nas estradas, exigindo apenas, em contrapartida, que os ciclistas respeitem a legislação em vigor. 

Não vamos negar que, em termos de mobilidade, é vantajoso. Principalmente porque nos deu legitimidade para circular na estrada. Mas... será mesmo mais seguro ? O que é que foi feito para promover essa segurança ? A operação "Pedalar em Segurança" da PSP ? Na essência, a ideia era interessante: « sensibilizar os ciclistas para os comportamentos de risco » (sim, porque também há ciclistas que precisam de ser sensibilizados para estas questões) mas, como sabemos, o fruto desta operação foram uns quantos títulos de jornal sensacionalistas, criados para induzir em erro quem só lê as letras gordas, e uns quantos artigos facciosos. Aquilo que era uma operação se sensibilização, transformou-se num circo itinerante, sem bilhete pré-comprado e com direito a participar.

Portanto... segurança ? A mesma que sentia antes destas alterações. 

Os bons condutores automóveis, já o eram e continuarão a sê-lo. 
Os donos da estrada, já o eram e continuarão a sê-lo. A não ser que se faça algo para mudar. Mas, como a fiscalização é inexistente, o mais provável é continuarem a comportar-se exactamente da mesma forma.

Qual será então, em teoria, a solução para promover o uso da bicicleta ? 

Na Holanda de 1979 (altura em que foram criadas as primeiras infraestruturas cicláveis) a resposta foi simples: constrói-as e eles virão. E a verdade é que em Den Haag, a criação dessas infraestruturas representou um aumento entre 30 a 60 % do número de ciclistas e, em Tilburg, esse aumento rondou os 75 %. 

Também na cidade de Ghent, Bélgica, que em 2012 ganhou a Eurostar Ashden Award for Sustainable Travel, as medidas adoptadas permitiram que o número de ciclistas aumentasse, entre 2008 e 2011, cerca de 15 %. E que medidas foram estas ?




  • Campanhas de marketing e promoção contínuas, com o objectivo de demonstrar que qualquer pessoa pode adoptar a bicicleta como meio de transporte, promovendo e incentivando assim a sua utilização
  • Criação de um site com informações úteis e práticas sobre a utilização da bicicleta na cidade
  • Apoio e interesse, por parte da classe política, em questões relacionadas com a promoção do uso da bicicleta e vantagens que daí advêm (resultante também do facto da cultura da bicicleta se ter tornado intrínseca)
  • Criação de locais livres de carros (como o centro da cidade) e reposicionamento do parqueamento automóvel, tornando assim, em termos comparativos, muito mais rápida a deslocação de bicicleta
  • Reformulação de ciclovias, colocando a infraestrutura fora da estrada e recolocando o parqueamento automóvel de forma a que este forme uma barreira entre o tráfego automóvel e a ciclovia
  • Criação de "Cycle Streets". Ou seja, estradas em que a bicicleta é prioritária em relação a todos os outros veículos, o que resultou num aumento significativo do número de ciclistas a circular (de 244 em Março de 2010 para 505 em Março de 2012) e uma diminuição do tráfego automóvel (259 em Março de 2010 para 192 em Março de 2012), assim como uma diminuição de 80 % de veículos a circular a mais de 50 Km/hora

Se algumas destas medidas poderiam ser adoptadas por cá ? Acredito que sim. E, o facto de existirem petições, como a da Ribeira das Naus sem Carros, demonstra que as pessoas têm vontade de se apropriarem novamente do que é seu, e de usufruir do espaço público que é de todos. Outro caso em que seria interessante: a Avenida da Liberdade. Sim, já tem faixas partilhadas nas extremidades mas, que tal vedaram essas faixas ao trânsito 2 ou 3 vezes por semana para ver como corre ? Se a construção da rotunda permitiu reduzir em 32 % os níveis de partículas inaláveis (que durante muito tempo transformaram a Avenida da Liberdade, na mais poluída do país) imaginem o que uma medida destas poderia fazer, não só em termos de poluição atmosférica mas também sonora...

Mas, não basta implementar medidas e construir ciclovias e fechar os olhos às irregularidades que espreitam a cada esquina. Lisboa não tem a tradição da bicicleta. Há um punhado de ciclistas resilientes que não abdica da bicicleta pelos mais diversos motivos mas, a grande maioria das deslocações, continua a ser feita a quatro rodas (apesar dos custos financeiros e ambientais que implica). Por isso, se queremos realmente que o número de bicicletas aumente, que as pessoas se sintam seguras a pedalar e que essa forma de transporte constitua uma vantagem em relação ao automóvel, é preciso AGIR!

De que vale ter uma ciclovia se depois temos de ir pela estrada porque está transformada em parque de estacionamento ? 





De que vale ter zonas 30 km/hora se os limites não são respeitados e as operações STOP, quando realizadas, são precedidas de um aviso com data e hora a que será respeitada ? 

De que vale construir ciclovias se não são práticas e cicláveis (desce passeio, sobe passeio) e não é feito qualquer tipo de manutenção, transformando-a numa verdadeira pista de obstáculos ?






As ciclovias deverão ser pensadas como uma alternativa viável e concretizável, construídas do ponto de vista utilitário e não de lazer, permitindo a TODOS (homens, mulheres, jovens, crianças, idosos, pais a transportar crianças) que as utilizem sem ter de recorrer à estrada como alternativa pois, se há quem tenha a destreza para circular entre os automóveis, há quem não se sinta seguro e, enquanto o ideal « bicicleta = segurança » não for alcançado, os números manter-se-ão, assim como a tendência de ir de carro para todo o lado.






Fontes:
Eltis-The Urban Mobility Portal
Diário de Notícias
Ashden Case Study
How the Dutch got their cycle paths
Ghent Campaing


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