quarta-feira, 11 de junho de 2014

EMEL e a política de (des)mobilidade urbana


A EMEL, Empresa Municipal de Estacionamento de Lisboa, foi criada por deliberação da Assembleia Municipal de Lisboa em 1994, enquadrada na chamada « política integrada de estacionamento » que tem como principal objectivo « potenciar a utilização de transportes públicos (...) reduzindo o congestionamento e melhorando a qualidade do ambiente urbano » (in, Definição do Plano Estratégico e do Novo Modelo Tarifário para a EMEL) 

Até aqui, tudo bem... Mas, vamos então espreitar a página da EMEL e ver quais são as suas principais prioridades: 

A médio prazo, em relação à gestão do estacionamento, a EMEL definiu como principais prioridades até 2013:
  • Construção de 4 parques de estacionamento em estrutura (1 parque por ano) - 2.000 novos lugares: Investimento 16.ooo.ooo €
  • Construção de 11 parques de estacionamento em superficie - 4.000 novos lugares: Investimento 2.578.000 €
  • Renovação e Modernização de 1.050 parquímetros - Investimento 5.250.000 €
  • Extensão da área de estacionamento gerida pela EMEL - 10.000 novos lugares
  • Modernização e diversificação das formas de pagamento do estacionamento


Resumindo, parece que a redução do congestionamento se consegue criando milhares de lugares de estacionamento. Mas... isso não vai levar a que as pessoas tragam na mesma o carro da periferia para o centro da cidade ? E se assim for, em que medida em que a construção de « 4 parques de estacionamento em estrutura » e « 11 parques de estacionamento em superfície » contribui para reduzir o tal congestionamento ?


Ah... espera... se calhar porque as pessoas deixam o carro no parque e depois vão de transportes públicos. A sério ... acreditam mesmo nisso ? Acham mesmo que uma pessoa vai enfrentar uma horda de automobilistas, estacionar num parque pago a alguns quilómetros do local de trabalho e depois ainda vai gastar dinheiro no passe para poder ir de transportes públicos até lá ?

Adiante.

A meu ver, sendo a EMEL uma empresa de ESTACIONAMENTO MUNICIPAL, e não "estacionamento municipal automóvel", imagino que também existam algumas medidas que visem a bicicleta. Afinal de contas, o estacionamento deveria englobar todos os veículos que circulam na via pública.

E não é que há mesmo ? Fantástico! Parece que afinal a EMEL até está empenhada na mobilidade.

Vamos lá espreitar a página 


A EMEL, em parceria com a ENGELMA, lançaram uma nova solução de mobilidade sustentável para a cidade de Lisboa, que passa pela utilização de bicicletas a partir de parques de estacionamento EMEL.
O serviço "B'ina - Estacione e siga caminho", sugere que os condutores, que sejam assinantes de Parques EMEL, estacionem o carro num dos Parques EMEL e "sigam caminho" de bicicleta, seja para o trabalho, numa curta deslocação ou simplesmente por puro lazer.



Deixem-me ver se percebi. A "nova solução de mobilidade sustentável" implica que eu tenha um carro, que o deixe num dos parques pagos da EMEL (visto que se destina a "condutores que sejam assinantes de Parques EMEL") e depois sim, poderei levar uma das bicicletas do serviço B'ina mediante o pagamento de uma taxa de 2,50 € (meio dia), 3,50 € (dia inteiro). Feitas as contas, ao final do mês, quem trabalhe em part-time tem uma despesa de 52.50 € de aluguer de bicicleta e, quem trabalha a tempo inteiro, de 73.50 €. Mais o custo na assinatura EMEL.

Sejamos realistas... porque raio é que alguém havia de vir de carro para Lisboa, pagar o parque e depois ir de bicicleta ? Com os 73.50 € do aluguer, conseguimos deixar o carro numa ruela, dar 1,50 € por dia ao arrumador e ainda nos sobra dinheiro. Ou então, estacionar em cima dos passeios e ciclovias, a custo 0 (o que, considerando a falta de fiscalização, é a solução preferida de muitos condutores). 

Avenida do Brasil, Campo Grande - Lisboa


Campolide - Lisboa


Avenida do Brasil - Lisboa


Mas, a palavra de ordem com esta ideia de aluguer de bicicletas é a "mobilidade sustentável". É bonito, fica bem e até é capaz de iludir algumas pessoas com o argumento falacioso de que as bicicletas existem ... as pessoas é que não as querem usar.


Mas para uma solução ser sustentável, tem de haver sustentabilidade. E a tal mobilidade, devia consistir na "capacidade de dar resposta às necessidades da sociedade em deslocar-se livremente, aceder, comunicar, transaccionar e estabelecer relações, sem sacrificar outros valores humanos e ecológicos hoje e no futuro" (World Business Council for Sustainable Development).

Há aqui alguma coisa que não faz sentido e, cada vez mais, a ideia deste aluguer de bicicletas me parece menos sustentável. 

Em primeiro lugar porque envolve uma quantia significativa de dinheiro: o combustível, o valor do parque e ainda o valor do aluguer da bicicleta. Assim, a capacidade de se "deslocar livremente" tem um custo e, são tão livres quanto o dinheiro que tiverem na vossa carteira.

Em segundo lugar porque, se vamos construir parques de estacionamento e fomentar a utilização do automóvel, estamos a sacrificar valores humanos e ecológicos hoje, o que acabará por se repercutir no futuro.


Querem realmente promover a mobilidade sustentável ? 


Criem soluções para quem queira combinar transportes os públicos e a bicicleta:
Estacionamento para bicicletas ao lado da paragem dos autocarros.


Parque de estacionamento na estação ferroviária de Massamá




Parque coberto para bicicletas junto à estação ferroviária.




Criem soluções seguras para quem não tenha espaço em casa para guardar a bicicleta:
Estacionamento em Roterdão.




Transformem os parques de estacionamento em estacionamento para todas as viaturas.
Como ?
Convertendo lugares de estacionamento automóvel em lugares para bicicletas.



Simplifiquem a vida para quem se desloca na cidade de bicicleta. Como se vê, um estacionamento para seis bicicletas não ocupa assim tanto espaço...



Exerçam, em parceria com a PSP, mais operações de fiscalização no que diz respeito ao estacionamento. De que vale a construção de parques e parques se a realidade do estacionamento abusivo (e por vezes até selvagem) permanece imutável ?


 
Como se pode ver, existem soluções. Basta adaptá-las à nossa realidade. 

E, arriscaria até dizer que o montante envolvido na instalação de soluções de estacionamento para bicicletas, não chegaria perto dos 30 milhões de euros de investimento previstos para a construção, até 2017, de 11 novos parques de estacionamento. Automóvel.

É este o conceito de "mobilidade sustentável" ?

É assim que a EMEL pretende, como refere na sua página, « potenciar a utilização de transportes públicos (...) reduzindo o congestionamento e melhorando a qualidade do ambiente urbano » ?!





Lamento mas ... parece-me que a relação será mais algo como:




Ou a empresa muda de nome e se assume definitivamente como a Empresa Municipal de Estacionamento Automóvel , pondo de lado argumentos como a "melhoria da mobilidade em Lisboa", o servir "a segurança e a mobilidade de todos os cidadão de Lisboa" (calculo que aqueles que têm de andar na estrada porque os carros estão ocupados não entram na categoria de cidadãos de Lisboa) e, a cereja no topo do bolo,







(Não sei o que prefiro: se o facto de se referir que "as mudanças na cidade de Lisboa são bem visíveis" tomando como exemplo apenas "duas conhecidas ruas de Lisboa". Ou o facto de se "agradecer e festejar" o facto de se encontrar cada vez mais condutores "que cumprem as normas do estacionamento")


Ou então, a EMEL assume-se definitivamente como uma empresa de estacionamento municipal que, não obstante os interesses financeiros (naturalmente que se espera sempre um retorno do investimento e, se possível, algum lucro) também tem preocupações de cariz social e ambiental.


Uma coisa ou outra.




Fontes:

1 comentário:

  1. A EMEL, segundo sei, é um empresa que serve apenas para lançar os boys do PS e os amigalhaços do Costa. Mobilidade é a sua última prioridade, é uma empresa de índole política. Eu dou sempre este exemplo. Em Amesterdão, um morador para estacionar a sua lata na rua em frente à porta de casa, paga 40€/mês, em Lisboa paga zero, e ainda é servido com parques da EMEL pagos pelo erário público.

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